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09/05/2010

A Pessoa Certa?


Apesar de o senso comum dizer que a América do Sul é uma região pacífica, sem guerras, isso não é correto. É verdade que não ocorre um conflito na região há alguns anos, sendo o último em 1995 entre Peru e Equador por uma região do rio Cenepa, pelo qual já haviam lutado em 1859-60 e 1941, e tido duas crises, uma em 1981 e a outra em 1992. Este exemplo reflete o oposto do senso comum, que existem várias rivalidades e disputas entre os países sul-americanos.
Uma rápida análise da história do continente aponta para outras situações como esta. Pode-se destacar a tensão entre Chile, Bolívia e Peru, uma vez que estes dois últimos perderam parte do território para os chilenos na Guerra do Pacífico em 1879! A Colômbia tem uma disputa com a Venezuela por águas territoriais no Golfo da Venezuela. Por sua vez, este último reivindica dois terços do território da Guiana, e esta tem uma disputa por uma região na sua fronteira com o Suriname.
Uma das formas de conseguir fazer com que antigas disputas não sejam reavivadas por novas rivalidades é manter o diálogo. A construção de visões comuns sobre Segurança e Defesa é um passo importante no que a diplomacia internacional chama de Medidas de Construção da Confiança e Segurança (MCCS). Estas medidas já foram bastante discutidas na Organização dos Estados Americanos (OES), com alguns resultados, mas não o fator mais esperado, a eliminação da tensão.
Outra forma é aumentar o intercâmbio comercial entre países. Uma vez que dois Estados tenham suas economias interligadas, forma-se uma interdependência entre eles, fazendo com que a possibilidade de conflitos diminua, uma vez que a resolução de problemas por via militar traz menos benefícios do que a manutenção do comércio e a solução dos problemas via diplomacia passa a ser o caminho.
Dentro desta lógica, com a economia globalizada, a possibilidade de grandes conflitos internacionais praticamente deixou de existir. Por isso, o aprofundamento desta integração econômica seria o ideal, mas, devido ao número muito grande de países envolvidos nas negociações, assim como temas cada vez mais complexos, tornou quase impossível a conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio.
Assim, os processos regionais deveriam ser o caminho mais adequado para ajudar na diminuição da tensão entre situações locais. Um grande exemplo disso é o Mercosul, que ajudou muito na aproximação entre Brasil e Argentina, que foram rivais na busca de liderança regional durante muitas décadas no século vinte.
A ampliação dessa lógica para toda a América do Sul seria um caminho para ajudar a diminuir as tensões existentes. Esse processo já teve início, com a criação da União das Nações Sul Americanas (UNASUL), em 2004, em uma tentativa de integração econômica de todos os países do continente. Mas essa instituição nasceu tendo que enfrentar sérios problemas, pois, justamente após este ano as diferenças políticas no continente passaram a se avolumar. O maior exemplo é o caso de Colômbia e Venezuela.
Neste quadro é que a Unasul tem que atuar, e que finalmente teve o nome do ex-presidente argentino Néstor Kirchner aceito para o cargo secretário geral no início deste mês.
E qual o perfil político do ex-presidente? Quando esteve no comando do executivo argentino, Kirchner se caracterizou por implementar políticas conflitivas com seus vizinhos, como foi o caso da indústria papelera que se instalou no Uruguai e não no seu país. Além disso, impôs várias barreiras aos produtos brasileiros, o que vai totalmente contra o espírito e as regras de uma União Aduaneira, como é o Mercosul. Além da forma como ele governou a política interna argentina, na base da confrontação, a busca de poder incontestável e uso de piqueteiros contra oposicionistas.
Assim, fica a questão, será que Néstor Kirchner é a liderança política com a habilidade necessária para conseguir dissolver as tensões e rivalidades existentes e aprofundar a integração econômica na América do Sul?
* Gunther Rudzit é Doutor em Ciência Política pela USP e professor da Sustentare Escola de Negócios



 

 
 
   
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