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18/11/2009 |
Planeta design
Você certamente já reparou: o mundo está mais quente, mais bagunçado, mais sujo, mais seco, e mais preocupado também. A autodestruição deve se completar em algumas centenas de anos. E tem uma notícia ainda pior: boa parte da culpa é do design!
É isso mesmo, uma disciplina tão cheia de beleza e ideais nobres tem culpa no cartório, e muita.
Nascido com a revolução industrial, o design foi concebido para trazer conforto e beleza para a plebe, que sempre foi maioria no mundo. O que antes era produzido por talentosos artesãos para uso exclusivo da nobreza, passou a ser comum nas casas da numerosa categoria dos sem-brasão. E dá-lhe bugigangas. Praticamente tudo passou a ser produzido em escala industrial a preços sedutoramente acessíveis, para deleite dos consumistas de plantão. Foi quando o design se uniu ao marketing e os objetos passaram a fazer as vezes de remédio para todas as questões humanas: nossos desejos, necessidades, descontroles emocionais, carências e dores passaram a ser resolvidos comprando e consumindo cada vez mais e mais.
A conseqüência disso foi a produção de lixo e desperdício de energia também no atacado, em dimensões nunca antes vistas neste planeta cada vez mais sujo e maltratado.
E agora? Bom, o povo do design também já notou o tamanho do estrago, e corre para apagar esse incêndio nem tão metafórico assim. Hoje, os projetos já contemplam estudos mais aprofundados sobre o ciclo de vida do produto e registra-se até o nascimento da logística reversa, que trata do retorno dos produtos, das embalagens e dos materiais ao local onde foram produzidos.
Outra área em crescente expansão (inclusive em prestígio e popularidade) é o ecodesign. Essa atualíssima área, antes relegada aos bicho-grilos e agora defendida por cosmopolitas engajados, preocupa-se em elaborar projetos que reduzam o impacto ambiental de várias maneiras: usar materiais não tóxicos e menos poluentes, privilegiando a reciclagem; pensar em processos produtivos que enfatizem a eficiência energética; elaborar produtos com mais qualidade e que durem mais, gerando menos lixo; projetar de maneira modular, onde a parte com problema pode ser substituída, sem que seja preciso jogar fora o objeto inteiro; e, finalmente, a reutilização e o reaproveitamento.
Estamos ainda muito longe de colher os frutos do ecodesign em uma escala que faça diferença, mas os designers, mesmo aqueles mais desligados dos problemas ambientais, deveriam prestar atenção em detalhes que não doem nada.
Inovação e o conceito de awesomeness
Umair Haque, diretor do Harvas Media Lab, explica no seu “The Awesomeness Manifesto” porque isso é necessário.
É difícil traduzir awesomeness, que seria mais ou menos a capacidade de impressionar, causar espanto.
Haque diz que a palavra inovação soa como uma relíquia da era industrial e que, por isso, a própria palavra precisa ser inovada.
Ele lembra que inovação implica em obsolescência. Inovação foi um conceito pioneiro criado pelo economista Joseph Schumpeter e utilizá-lo implica também em aceitar a teoria da destruição criativa, onde o mercado se sustenta à base da substituição do antigo pelo novo. Só que não dá mais para continuar nesse ciclo maluco, os resultados estão aí para quem quiser ver. À luz da sustentabilidade e do conceito de interdependência, obsolescência é que é um conceito obsoleto.
Haque lembra também que a inovação trata basicamente de empreendedorismo ou seja, toda boa ideia precisa se transformar em negócio lucrativo para merecer o título de inovação. Seguindo esse princípio, o que se percebe é quase tudo já foi inventado e não apenas isso: está à venda em qualquer esquina ou site. Poucas coisas fundamentalmente novas estão sendo criadas nos dias atuais. A inovações cada vez mais caminham para encontrar maneiras novas de vender, apenas isso.
O autor lembra que o desafio do século XXI não é desenvolver a criatividade para vender mais coisas; o problema é construir coisas melhores e com menos impacto para o planeta.
A expressão mais usada no mundo corporativo é “agregar valor”. Ora, segundo Haque, mais valor é uma ilusão. A maioria das empresas consegue criar um pequeno valor, nada significativo que justifique o uso indiscriminado do termo. Valor de verdade, grande, para Haque, tem que ser sustentável.
Isso significa realmente fazer melhor, não apenas adicionar botões em um telefone ou sabores em um refrigerante.
Aliás, essa história de acrescentar botões a um ritmo frenético reduzindo o ciclo de vida dos produtos e os jovens (ou seja, as pessoas que herdarão essa encrenca toda) trocam de celular mais frequentemente do que trocam de escova de dentes.
A cada dia das mães, natal, dias dos pais, namorados, páscoa, dia da criança, chovem promoções irresistíveis. Tudo é motivo para jogar fora o novo e trocar pelo novíssimo. Observando as pessoas ensandecidas para trocar aparelhos em excelente estado de funcionamento fico me lembrando de um conto de ficção científica que eu li há muitos anos e que me impressionou muito.
O conto, de Frederik Pohl, chamado “O homem que comeu o mundo” conta a surpreendente história de um menino que vive em algum lugar no futuro.
No mundo dele, onde a produção não pode parar de crescer, o consumo também não pode estabilizar. Sua família é muito pobre e, por isso, os pais são obrigados a passar as noites fora, consumindo desenfreadamente em bares e afins.
Durante o dia, precisam comprar sem parar em shoppings. O menino mora numa casa imensa e se sente solitário com seus numerosos guardiães eletrônicos e montanhas de brinquedos inteligentes, trocados diariamente. E o menino é profundamente infeliz.
O problema é que ele queria um quarto pequeno e aconchegante, e não dormir em um salão temático. Ele sonhava dormir abraçado todo dia com o mesmo ursinho de pelúcia, mas as versões mudam a cada dia e ele precisa acompanhar as tendências.
Ele chora porque quer o colo da mãe, mas ela tem que consumir, e, além disso, os robôs-babás precisam ser testados. Ele quer brinquedos simples, mas tudo tem que interagir e desenvolver suas infantis capacidades cognitivas. Ele quer chorar, mas os procedimentos para parar choro de criança são insuportáveis e enfadonhos. Ele quer ser rico.
Rico é quem não precisa mais comprar. Rico é quem já tem o que necessita, gosta das coisas que possui e não tem que servir de cobaia para novos lançamentos. Rico não sente a obrigação de ter, pode se preocupar apenas em ser. E o máximo dos máximos, os meninos ricos podem ficar com o mesmo ursinho de pelúcia até crescerem e eles mesmos decidirem quando não o querem mais.
Será que vai chegar o dia em que só os muito ricos poderão ficar com o mesmo aparelho celular por mais de um ano? Mais do que inovar e desenvolver novos produtos ecologicamente corretos, precisamos mudar os hábitos consumistas arraigados tão fortemente em nossa cultura.
E agora não é mais ficção, é realidade mesmo.
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O conto citado, “The man who ate the world”, é parte do livro “The science fiction weight-loss book”, editado por Isaac Asimov em 1983.
O “The Awesomeness Manifesto” está disponível em
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