| |
31/08/2009 |
O que andam pensando sobre nós?
A revista britânica The Economist lançou em seu site em 13 de agosto, um artigo cujo título pode ser traduzido por “De que lado o Brasil está?”.
Esta revista é uma das mais conceituadas internacionalmente, sendo assinada por todas as grandes instituições de pesquisa no mundo, investidores do setor econômico, governos, como também por pessoas comuns. Assim, ela pode ser considerada uma grande formadora de opinião pública internacional.
Ela inicia o artigo dizendo que este é um período muito bom para ser brasileiro, especialmente o nosso presidente. Afinal de contas, o gigante da América Latina passou a ser cotado em qualquer lista dos poucos lugares que importam no século 21, e também como um dos grandes interlocutores internacionais, seja para a reforma financeira internacional ou para mudanças climáticas. Parte desse papel se deve, segunda a revista, ao perfil do presidente Lula, que foi um líder sindical com instinto conciliatório, que conseguiu arrancar elogios tanto no presidente americano Barack Obama, quanto do líder cubano Fidel Castro.
Do ponto de vista econômico, a The Economist lembra que, após o banco de investimentos Glodman Sachs ter colocado o Brasil junto com China, Rússia e Índia na expressão BRIC, que seriam os países que dominariam o mundo no ano de 2050, muitos analistas diziam que nós não deveríamos estar neste grupo. Hoje, após a crise econômica, é a Rússia que passou a ser questionada se merece estar nesta classificação. Além disso, dentre esses países, o Brasil é o mais “ocidental”, assim como, diferentemente de China e Rússia, é uma grande democracia em uma região tradicionalmente democrática.
Apesar dessas características, os britânicos lembram que a política externa do governo Lula foi de aproximação com os países emergentes do “sul”. Esta postura pode ter rendido a abertura de novos mercados para os produtos brasileiros na Ásia, África e Oriente Médio, mas questiona qual seria o fator que manteria esses países unidos? Lembra que foi a China a primeira a bloquear qualquer negociação sobre a ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde o nosso presidente sonha em conseguir um assento permanente. Assim como foi a Índia que praticamente sozinha terminou com a esperança de finalizar as negociações de Doha na OMC, tão cara ao nosso ministro Celso Amorim.
A revista lembra de alguns pontos negativos em relação a algumas atitudes da política externa brasileira. Primeiro a recusa em assinar um acordo para melhorar as inspeções internacionais em reatores nucleares para uso civil. Em segundo, não termos apoiado a condenação por abuso aos direitos humanos os governos da China e de Cuba. Terceiro, no campo da defesa da democracia, ter parabenizado tão rapidamente o presidente iraniano pela sua vitória em uma eleição altamente contestada e que resultou na repressão e morte de opositores.
O artigo termina questionando qual deverá ser a postura do Brasil quando assumir o assento rotativo no Conselho de Segurança em janeiro próximo, quando terá que decidir se apoiará ou não sanções econômicas mais duras contra o Irã, que tenta desenvolver sua bomba nuclear de forma que desrespeita acordos internacionais. Ou então, se teremos a iniciativa de não apoiarmos uma postura que mina a democracia na América do Sul, como vem fazendo o presidente venezuelano Hugo Chávez.
Diante de tais argumentos, é preciso que nós brasileiros nos questionemos se, a fim de conseguirmos status, prestígio e mercados para nossos produtos, o Brasil precisa tomar posturas contrárias a valores como direitos humanos e democracia. Valores que fazem parte da nossa sociedade, e que lutamos tanto para reconquistar depois de anos de ditadura. As sociedades dos países desenvolvidos já estão avaliando isso, como fica explícito no artigo da Economist, e poderão tomar medidas que possam vir a prejudicar todo o esforço brasileiro de desenvolvimento econômico, se decidirem, por exemplo, boicotar produtos made in Brazil.
Gunther Rudzit é doutor em Ciência Política pela USP e professor do Sustentare Escola de Negócios.
|
|
|
|
|
 |
|
|