| |
03/11/2008 |
Marolas que poderão afetar o Brasil
O pior da crise financeira internacional parece já estar passando, entretanto, as bolsas continuam instáveis devido ao futuro incerto da economia real.
Por isso as análises sobre a crise começaram a mudar de foco, tendo agora a preocupação de caminharmos para uma recessão em praticamente todo o mundo desenvolvido. A taxa de desemprego nos Estados Unidos está crescendo para mais de 6%, índice dos mais alto em muitos anos. Europa e Japão também estão com desaceleração econômica e perspectivas de recessão. Esta realidade já está afetando os países em desenvolvimento, contrariando as previsões de descolamento dos processos de crescimento.
Um primeiro grande efeito já apareceu. O preço do petróleo caiu mais de 50% em menos de três meses, saindo do pico de U$ 147 em Julho e chegando abaixo de U$ 70 o barril agora em Outubro. Além disso, outras commodities também estão com os preços em baixa, como minério de ferro e soja. O que parece ser uma boa notícia para o mundo, já afeta países com grande dependência desses produtos, como a Rússia e até mesmo o Brasil.
Essa desaceleração de preços, principalmente do petróleo, se deve a dois fatores. O primeiro por um movimento de investidores que buscaram refúgio nos derivativos dessa commodity, e agora, com a crise e a valorização do dólar, passaram a vender suas posições. O outro fator é o da perspectiva de uma forte desaceleração econômica no mundo todo, inclusive, na China.
O fechamento recentemente de três grandes fábricas chinesas de brinquedos pode ser, na verdade, só a ponta do iceberg de problemas maiores. Desde o início do ano metade das indústrias na região do Delta do Rio das Pérolas fechou, e a outra metade deve seguir o mesmo caminho nos próximos dois anos. Se isso ocorrer, a economia chinesa poderá crescer menos do que os 9% previstos, e o preço do petróleo deverá cair ainda mais.
Entretanto, se o preço dessa commodity se estabilizar ao redor de U$ 70 o barril, ajudará muito na recuperação da economia mundial, mas, por outro lado, também criará problemas para o Brasil.
Recentemente, discutiu-se muito aqui no País o que se faria com a futura riqueza gerada pelo petróleo do pré-sal descoberto no nosso litoral. Mais do que nunca, essa discussão parece que foi precipitada, já que os custos para a efetiva exploração dessa riqueza começam a ficar cada vez maiores.
Em análises independentes, tanto o banco suíço UBS quanto a Agência Internacional de Energia (AIE) chegaram ao cálculo de aproximadamente U$ 600 bilhões os investimentos necessários para a extração desse mineral. Com o valor das ações da Petrobras caindo tanto, fica cada vez mais dispendioso para a empresa conseguir levantar empréstimos no mercado internacional, já que isso afetaria o seu endividamento e possível perda do grau de investimento das agências de risco. Ou seja, a queda do preço do petróleo pode não ser uma boa notícia para o governo brasileiro, que corre o risco de ficar sem os benefícios que imaginou.
Outro problema que o governo brasileiro poderá enfrentar é em relação a alguns países vizinhos. Três semanas atrás a revista britânica The Economist calculou que, para a Venezuela sustentar suas importações, o preço do petróleo teria que ser de U$ 75 o barril. Se esse respeitável semanário internacional estiver certo, o presidente venezuelano poderá ter grandes problemas políticos e econômicos.
O coronel Chavez já enfrenta a escassez de alguns produtos, e a inflação oficial encontra-se em 27% ao ano. Se a situação econômica piorar, pode ser que ele venha a enfrentar grandes protestos internos, e, tendo em vista as recentes prisões de opositores, o governo Lula terá que encarar mais um dilema na sua política regional. Isso sem contar que o mesmo pode acontecer com os governos do Equador e da Bolívia, que também dependem fortemente dos impostos dos hidrocarbonetos para sustentar suas políticas sociais.
Ao que parece, as turbulências internacionais podem afetar o Brasil de muitas outras formas do que aquelas imaginadas por Brasília.
Gunther Rudzit é doutor em Ciência Política pela USP e professor de Relações Internacionais do INPG/Sustentare Escola de Negócios.
|
|
|
|
|
 |
|
|