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13/10/2008 |
Entendendo melhor a crise do mercado financeiro americano
O mercado financeiro desempenha um papel fundamental na sociedade moderna. Permite a intermediação de recursos de quem tem recursos sobrando para quem necessita de recursos. Colocando de maneira mais simples, as pessoas que consomem menos que sua renda permite, têm a satisfação de ter recursos sobrando, ou seja, poupança, que normalmente são levadas às instituições financeiras para uma aplicação, objetivando ganhos financeiros.
De acordo com a teoria econômica podemos dizer que essas pessoas estão renunciando ao consumo hoje, para poder consumir mais e melhor amanhã. E este comportamento é muito importante para uma sociedade, pois se estes recursos poupados forem direcionados, de alguma forma a investimentos (no setor produtivo da economia), estarão contribuindo para o crescimento e desenvolvimento de uma economia, conseqüentemente estarão garantindo uma renda maior amanhã.
Mas, na maioria das vezes, o que as instituições financeiras fazem com esse dinheiro? Duas são as alternativas: emprestar ou financiar a aquisição de bens duráveis, e até mesmo não duráveis. De certa forma, as instituições financeiras permitem a antecipação do consumo futuro, que pode, se não tivermos controle, levar a um total comprometimento da renda futura, aumentando significativamente a probabilidade de ocorrência de inadimplência.
Quando recorremos a uma instituição bancária para um empréstimo num montante elevado, é praxe solicitarem garantias adicionais, além da tradicional nota promissória, que normalmente já traz consigo uma garantia acessória que é o avalista. E a garantia mais utilizada é a de um imóvel, que não onde o tomador do recurso reside, e que não esteja localizado em área rural. Mas, eventualmente, poder-se-á utilizar de outros mecanismos para garantir uma operação financeira desta natureza. Por exemplo, um quadro. Quadro que foi adquirido em uma feira de artesanato, em algum rincão do país. Prudentemente, na sua aquisição, solicitamos uma nota fiscal no valor da transação: R$ 50 mil, mais um atestado de autenticidade.
Decidimos tomar um empréstimo junto a uma instituição financeira no valor de R$ 20 mil, para pagamento integral do principal e dos juros em 30 dias. Em função de todo um histórico como cliente de baixo risco, a instituição se pré-dispõe em oferecer os recursos, mas solicita uma garantia adicional. Oferecemos então como garantia o quadro em questão, no valor de duas vezes e meia o montante do empréstimo, e o recurso em poucos dias nos é liberado.
Passados os trinta dias, o banco entra em contato conosco avisando do vencimento do empréstimo. Após apresentarmos como justificativa para o não pagamento do empréstimo o fato de termos sido dispensados por nosso empregador, a instituição nos informa que ele será obrigado a executar a garantia, ou seja, tomar o nosso quadro. Mas não podemos esquecer que os recursos emprestados pelo banco são, na realidade, os recursos de um poupador que realizou uma aplicação financeira na instituição financeira por 30 dias.
Como o banco tem que honrar este compromisso, ele se vê obrigado a vender o quadro para repassar os recursos ao aplicador. Entretanto, ao tentar vender o quadro, a instituição constata que a melhor oferta dada a ele não passa de R$ 2 mil. Aí surge o problema das garantias ruins: onde o banco irá obter essa diferença entre o valor de mercado do quadro e a quantia que ele nos emprestou? Quem arca com o prejuízo de R$ 18 mil?
Imaginando que os recursos disponíveis em caixa dos bancos podem representar uma parcela significativamente menor que o valor que ele empresta, ele se encontrará em estado falimentar. Mas se ele falir, como fica a credibilidade do mercado financeiro como um todo? Aí vem o papel dos bancos centrais de não permitir que isso aconteça, com o risco de provocar uma crise sem limites. Daí o fato deles estarem adquirindo essas garantias podres, no nosso caso, o quadro, ao valor de R$ 20 mil.
Otto Nogami Economista, professor do IBMEC São Paulo e do INPG/Sustentare
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