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31/08/2008 |
O Futuro do Mercosul pós-Doha
O Brasil foi, durante muito tempo, um dos países mais fechados em relação à sua economia. Por isso, o que acontecia internamente em matéria de política ou de economia, praticamente não tinha efeito na política externa brasileira, e vice versa.
Foi somente no governo Collor de Mello que essa barreira foi demolida, e muito criticada na época, já que o presidente abriu unilateralmente o nosso mercado sem exigir nada em contrapartida. O que poucos perceberam foi que o mundo estava passando por uma grande transformação.
Com o fim da Guerra Fria, o processo de globalização econômica se acelerou e o Brasil era visto com muita reserva por vários governos e investidores privados. Afinal, nós éramos fechados economicamente via reserva de mercado, não respeitávamos patentes e tínhamos dado um calote na nossa dívida externa. Não foi a toa que os presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso caminharam na direção de incluir o país nessa nova fase de crescimento da economia mundial, e não nos tornássemos irrelevantes perante vários outros países emergentes que despontavam.
Para tanto, a diplomacia brasileira passou a ter dois grandes objetivos, um em fórum multilateral e outro regional. No primeiro caso, o exemplo foi termos participado das negociações da Rodada Uruguai do Gatt (sigla em inglês para Acordo Geral para Comércio e Tarifas) que levaram à criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995. O segundo caso foi o aprofundamento das relações com a Argentina para o fortalecimento do Mercosul, pois, na visão do Itamaraty, a aliança estratégica com a Argentina seria fundamental para enfrentar essa realidade, pois, assim, teríamos um peso maior atuando em bloco, além de um mercado maior para a indústria nacional.
Essas mudanças significaram que a separação entre interno e externo praticamente deixou de existir, e as negociações em matéria de política externa passaram a ter impacto direto na vida interna do país e da sociedade.
Diante deste quadro é que o Brasil passou a negociar alguns acordos comerciais, tanto no âmbito bilateral como multilateral. No primeiro caso, buscou-se a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), basicamente negociando com o governo norte-americano, e iniciou conversações com a União Européia. O grande problema foi que o atual governo concentrou os esforços no âmbito multilateral, a famosa Rodada Doha da OMC. Nela, o governo Lula identificou como interesse nacional a redução do subsídio à agricultura por parte dos países desenvolvidos. E, por isso, abandonou as outras negociações em andamento.
O ponto alto desse plano foi a criação do G-20, formado por países em desenvolvimento e que, segundo palavras do presidente Lula, iria mudar a geografia comercial do mundo. Em um primeiro momento, estes governos conseguiram impedir que os países mais desenvolvidos impusessem um acordo que seria ruim ao grupo.
Mas, o que não se percebeu em Brasília, ou, pelo menos, não foi dito publicamente, é que os interesses destes aliados não eram iguais, era, na realidade, uma aliança defensiva para que cada um não deixasse que seus interesses fossem atropelados. Não foi a toa que no final, essa divisão ficou patente, o Brasil aceitou o acordo proposto, enquanto a China e a Índia se opuseram, mesma postura divulgada pela Argentina.
Com o fracasso das negociações multilaterais no âmbito da OMC, sobra somente a opção de acordos comerciais bilaterais, como o próprio Ministro Celso Amorim admitiu. Contudo, isso não garante que será alcançada qualquer abertura para produtos brasileiros, já que, tanto Estados Unidos quanto Europa, devem manter, nestas possíveis futuras negociações, as mesmas reivindicações que levaram ao fracasso de Doha. Como o Brasil tem que atuar em conjunto com os parceiros do Mercosul, é praticamente impossível que se consiga um acordo comercial. O que, com certeza, não é do interesse nacional. Diante dessa realidade, é de se questionar qual o futuro do Mercosul.
Gunther Rudzit é Doutor em Ciência Política pela USP e professor de Relações Internacionais do INPG/ Sustentare Escola de Negócios, IBMEC-SP e FAAP.
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